A endometriose profunda é uma condição ginecológica complexa, frequentemente subdiagnosticada. Em 2026, o ultrassom transvaginal com preparo intestinal, associado à avaliação dinâmica e Doppler, consolidou-se como método de primeira linha, superando a ressonância magnética em diversos cenários clínicos.
Diretrizes recentes da ESHRE e consensos europeus destacam que o ultrassom bem executado oferece maior correlação com sintomas, melhor mapeamento funcional e custo-efetividade superior.
1. O QUE DEFINE ENDOMETRIOSE PROFUNDA
A doença é caracterizada por implantes que infiltram mais de 5 mm abaixo do peritônio. Os locais de acometimento mais frequentes incluem:
- Ligamentos uterossacros;
- Septo reto-vaginal;
- Parede intestinal (reto e sigmoide);
- Bexiga e ureteres.
2. POR QUE O ULTRASSOM SUPERA OUTROS MÉTODOS
O grande diferencial do ultrassom não é apenas a resolução de imagem, mas a sua natureza dinâmica:
Avaliação dinâmica em tempo real
Diferente da ressonância magnética, o ultrassom permite avaliar a mobilidade dos órgãos e identificar aderências através do sinal do deslizamento (“sliding sign”). Se os órgãos não deslizam livremente entre si à pressão do transdutor, há evidência direta de obliteração do fundo de saco de Douglas.
Melhor correlação com a dor
O médico pode realizar a compressão dirigida sobre os focos suspeitos, confirmando se aquele nódulo específico é o gerador da queixa clínica da paciente.
Outras vantagens:
- Avaliação funcional intestinal e urinária precisa;
- Maior precisão para o planejamento cirúrgico detalhado;
- Custo-efetividade e acessibilidade superiores.
3. ACHADOS ULTRASSONOGRÁFICOS CLÁSSICOS
Na busca ativa por focos profundos, o ultrassonografista deve identificar:
- Espessamentos hipoecoicos irregulares;
- Bordas mal definidas com aspecto infiltrativo;
- Perda dos planos anatômicos habituais;
- Nódulos que distorcem a anatomia local;
- Redução acentuada da mobilidade uterina ou ovariana.
4. ARMADILHAS DIAGNÓSTICAS (PITFALLS)
Evite erros comuns na rotina de mapeamento:
- Confundir focos de fibrose com miomas subserosos;
- Ignorar o preparo intestinal: a presença de fezes e gases impossibilita a visualização de pequenos nódulos no reto;
- Não realizar a avaliação sistemática dos ureteres (risco de hidronefrose silenciosa);
- Não correlacionar os achados de imagem com a história clínica de dor.
5. MODELO DE DESCRIÇÃO EM LAUDO
“Identifica-se nódulo hipoecoico de contornos irregulares e aspecto infiltrativo localizado em ligamento uterossacro esquerdo, medindo __ × __ mm. O foco apresenta redução de mobilidade local e reproduz a dor referida pela paciente à compressão dirigida. Achados compatíveis com endometriose profunda.”
CONCLUSÃO
Em 2026, o ultrassom deixou de ser apenas um método diagnóstico complementar para tornar-se a ferramenta estratégica central no manejo e decisão terapêutica da endometriose profunda.
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
- ESHRE Endometriosis Guidelines 2024–2025
- Ultrasound in Obstetrics & Gynecology — Deep Endometriosis Imaging
- Human Reproduction Update — TVUS vs MRI in Endometriosis
- ESGE/ESHRE Consensus Statements