A ultrassonografia é o método de primeira linha na avaliação da glândula tireoide.
Quando associada ao Doppler colorido e espectral, amplia significativamente a capacidade diagnóstica, permitindo diferenciar:
- Tireoidites autoimunes;
- Doença de Graves;
- Tireoidite subaguda;
- Nódulos benignos e malignos;
- Processos inflamatórios ativos.
Em 2026, o Doppler não é apenas complementar — é parte integrante da avaliação tireoidiana moderna, conforme reforçado pelas diretrizes da American Thyroid Association (ATA) e da AIUM.
1. BASE ANATÔMICA E TÉCNICA
Para uma avaliação Doppler confiável, a técnica adequada exige:
- Transdutor linear de alta frequência (10–15 MHz);
- PRF ajustado para fluxos de baixa velocidade;
- Filtro de parede baixo;
- Ganho otimizado sem artefato de ruído;
- Avaliação comparativa bilateral.
2. TIREOIDITE DE HASHIMOTO
A tireoidite de Hashimoto é a principal causa de hipotireoidismo autoimune.
Achados no Modo B:
- Ecotextura difusamente heterogênea;
- Redução global da ecogenicidade;
- Padrão micronodular (pseudonodulações);
- Septações fibrosas;
- Volume aumentado nas fases iniciais e reduzido em fases crônicas.
Padrão Doppler:
- Fase inflamatória ativa: Aumento difuso da vascularização e fluxo de baixa resistência.
- Fase tardia: Redução do fluxo e parênquima atrófico.
Importante: A vascularização é variável e depende diretamente da fase da doença.
3. DOENÇA DE GRAVES (HIPERTIREOIDISMO AUTOIMUNE)
Este é o diferencial fundamental em relação à tireoidite de Hashimoto.
Modo B:
- Aumento difuso da glândula;
- Ecotextura levemente heterogênea.
Doppler:
- Hipervascularização intensa;
- Padrão característico conhecido como “inferno tireoidiano”;
- Fluxo difusamente aumentado;
- Resistência vascular reduzida.
Nota: Graves apresenta uma vascularização muito mais exuberante do que Hashimoto.
4. TIREOIDITE SUBAGUDA (DE QUERVAIN)
Apresentação clínica e ultrassonográfica distinta:
- Áreas hipoecoicas mal definidas;
- Dor local à compressão com o transdutor;
- Redução da vascularização nas áreas inflamatórias.
Diferente de Graves, o fluxo pode estar nitidamente reduzido na área afetada.
5. NÓDULOS TIREOIDIANOS E DOPPLER
O Doppler auxilia na estratificação de risco, mas não substitui os critérios morfológicos.
Nódulos benignos:
- Vascularização periférica (padrão em halo);
- Fluxo organizado;
- Ausência de microcalcificações.
Nódulos suspeitos:
- Vascularização interna predominante e fluxo caótico;
- Associação de risco com: Margens irregulares, microcalcificações, hipoecogenicidade marcada e nódulo mais alto do que largo.
Importante: A vascularização isolada não define malignidade.
6. DOPPLER ESPECTRAL NA TIREOIDE
Pode auxiliar na diferenciação funcional avaliando:
- Índice de resistência (IR);
- Velocidade sistólica;
- Avaliação específica da artéria tireoidiana inferior.
Estudos recentes mostram aumento significativo da velocidade sistólica na Doença de Graves.
7. ARMADILHAS DIAGNÓSTICAS (PITFALLS)
- Ganho excessivo simulando hipervascularização;
- PRF inadequado mascarando o fluxo real;
- Confundir Hashimoto (pseudonódulos) com padrão nodular difuso verdadeiro;
- Ignorar correlação laboratorial (TSH, T4 livre, anticorpos).
MODELOS DE LAUDO PRÁTICOS
TIREOIDITE DE HASHIMOTO:
“Glândula tireoide com volume discretamente aumentado, ecotextura heterogênea difusa e redução global da ecogenicidade. Mapeamento com Doppler colorido evidencia vascularização difusamente aumentada. Achados compatíveis com pormenores de tireoidite autoimune.”
DOENÇA DE GRAVES:
“Glândula aumentada difusamente, com vascularização intensamente aumentada ao Doppler colorido, caracterizando padrão hiperdinâmico difuso. Achados compatíveis com Doença de Graves.”
8. QUANDO INDICAR BIÓPSIA (PAAF)?
Conforme diretrizes da ATA 2023–2025:
- Basear-se sempre em critérios TI-RADS;
- Avaliar tamanho e padrão ultrassonográfico morfológico;
- O Doppler é complementar, não decisivo isoladamente.
CONCLUSÃO
O Doppler da tireoide é uma ferramenta poderosa quando integrado à avaliação estrutural. Ele permite:
- Diferenciar doenças autoimunes;
- Avaliar atividade inflamatória;
- Auxiliar na estratificação de risco de nódulos;
- Correlacionar achados de imagem com a função tireoidiana.
Em 2026, a avaliação tireoidiana adequada exige domínio técnico do Doppler, padronização e forte integração clínica.
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
- American Thyroid Association Guidelines (ATA) – 2023–2025 updates
- AIUM Practice Parameter for Thyroid and Parathyroid Ultrasound
- Tessler FN et al. ACR TI-RADS. Radiology
- Vitti P et al. Doppler in Graves Disease. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism
- Ultrasound in Medicine & Biology – Thyroid Imaging Advances