Doppler de Carótidas em 2026: Critérios Atualizados, Estratificação de Risco e Interpretação

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Doppler de Carótidas em 2026: Critérios Atualizados, Estratificação de Risco e Interpretação

Instituto Arruda Câmara

O Doppler de carótidas é um dos exames vasculares mais relevantes na prevenção primária e secundária do Acidente Vascular Cerebral (AVC).

A ultrassonografia duplex permite:

  • Avaliação morfológica da parede arterial;
  • Caracterização de placas ateroscleróticas;
  • Análise hemodinâmica por meio de velocidades sistólicas e diastólicas;
  • Estratificação do grau de estenose.

As recomendações da Society of Radiologists in Ultrasound (SRU) e do American Institute of Ultrasound in Medicine (AIUM) continuam sendo a base para a interpretação padronizada em 2026.


1. BASE ANATÔMICA E TÉCNICA

Segmentos avaliados

  • Artéria carótida comum (ACC);
  • Bifurcação carotídea;
  • Artéria carótida interna (ACI);
  • Artéria carótida externa (ACE);
  • Artéria vertebral.

Técnica adequada

  • Ângulo Doppler: ≤ 60°;
  • Amostra (Volume Gate): Centralizada no fluxo;
  • PRF: Ajustado à velocidade esperada para evitar aliasing;
  • Avaliação: Bilateral comparativa.

Nota: O ângulo inadequado é uma das principais causas de erro na estimativa da estenose.


2. ESPESSAMENTO MÉDIO-INTIMAL (IMT)

O IMT (Intima-Media Thickness) é um marcador precoce de aterosclerose.

  • Normal: < 0,9 mm
  • Espessamento: ≥ 1,0 mm

O aumento do IMT está associado a maior risco cardiovascular, mesmo sem estenose significativa.


3. PLACAS ATEROSCLERÓTICAS

Placas estáveis:

  • Hiperecogênicas;
  • Superfície lisa;
  • Calcificadas;
  • Sombra acústica posterior.

Placas instáveis:

  • Hipoecoicas;
  • Heterogêneas;
  • Superfície irregular;
  • Ulceração;
  • Hemorragia intraplaca.

Importante: Placas hipoecoicas estão associadas a um maior risco embólico.


4. CRITÉRIOS HEMODINÂMICOS ATUALIZADOS (SRU)

A avaliação da estenose baseia-se principalmente na velocidade sistólica máxima (PSV) da Artéria Carótida Interna (ACI).

Grau de Estenose PSV ACI (Velocidade Sistólica Máxima)
Normal < 125 cm/s
50–69% 125–229 cm/s
≥ 70% ≥ 230 cm/s
Oclusão Ausência de fluxo

Além disso:

  • Relação ACI/ACC > 4 sugere estenose significativa.
  • Aumento da velocidade diastólica final (EDV) também auxilia na graduação de estenoses críticas.

5. ACHADOS SECUNDÁRIOS IMPORTANTES

  • Turbulência pós-estenótica;
  • Alargamento espectral (Spectral broadening);
  • Fluxo reverso na carótida externa (sinal de internalização);
  • Alterações compensatórias na artéria vertebral.

6. ARMADILHAS DIAGNÓSTICAS (PITFALLS)

  • Tortuosidade da artéria (kinking/coiling) simulando estenose;
  • Calcificação intensa gerando sombra acústica e dificultando a leitura do Doppler;
  • Subestimação da velocidade em estenose crítica (near occlusion);
  • Não avaliar todo o trajeto acessível da ACI;
  • Ignorar o contexto clínico (paciente sintomático x assintomático).

7. INTEGRAÇÃO CLÍNICA

O Doppler de carótidas é formalmente indicado em:

  • Pacientes com AIT (Ataque Isquêmico Transitório) ou AVC prévio;
  • Sopro carotídeo detectado ao exame físico;
  • Avaliação pré-operatória vascular (ex: cirurgia cardíaca);
  • Alto risco cardiovascular;
  • Monitoramento pós-endarterectomia ou stent.

A decisão terapêutica final depende do grau de estenose, sintomas, risco cirúrgico e idade do paciente.


MODELOS DE LAUDO PADRONIZADO

ESTENOSE SIGNIFICATIVA:
“Placa aterosclerótica predominantemente hipoecoica na origem da artéria carótida interna direita, condicionando velocidade sistólica máxima de 245 cm/s e relação ACI/ACC de 4,3. Achados compatíveis com estenose ≥ 70%.”

EXAME NORMAL / ESPESSAMENTO:
“Espessamento médio-intimal bilateral discreto, sem evidência de placas ateroscleróticas significativas ou estenoses hemodinamicamente relevantes nos segmentos avaliados.”


8. QUANDO ENCAMINHAR PARA AVALIAÇÃO INTERVENCIONISTA?

Conforme as recomendações atuais:

  • Estenose ≥ 70% sintomática: Considerar intervenção (endarterectomia ou stent).
  • Estenose ≥ 60% assintomática: Avaliar o risco individual e benefício cirúrgico.
  • Oclusão total: Manejo clínico conservador (não há benefício cirúrgico na oclusão completa estabelecida).

CONCLUSÃO

O Doppler de carótidas é uma ferramenta fundamental na prevenção do AVC. Sua correta execução e interpretação exigem:

  • Técnica padronizada;
  • Domínio dos critérios hemodinâmicos;
  • Avaliação morfológica detalhada das placas;
  • Integração com o contexto clínico.

Em 2026, o ultrassonografista deve ir além da simples medição de velocidades — deve compreender o risco embólico e cardiovascular global associado aos achados.

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  • Society of Radiologists in Ultrasound Consensus Conference Statement on Carotid Stenosis
  • AIUM Practice Parameter for Extracranial Cerebrovascular Ultrasound
  • North American Symptomatic Carotid Endarterectomy Trial (NASCET) criteria
  • Journal of Vascular Surgery – Carotid Imaging Updates
  • Radiology – Carotid Duplex Ultrasonography Standards

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