A ultrassonografia da região cervical é o método de primeira linha na investigação de massas palpáveis, linfonodomegalias, patologias tireoidianas e alterações das glândulas salivares.
Por ser um exame dinâmico, acessível e sem radiação, o ultrassom permite:
- Avaliação morfológica detalhada;
- Análise vascular ao Doppler;
- Correlação imediata com sintomas;
- Direcionamento para punção aspirativa (PAAF).
Diretrizes da AIUM (American Institute of Ultrasound in Medicine) e da EFSUMB (European Federation of Societies for Ultrasound in Medicine and Biology) reforçam a importância da abordagem sistemática e padronizada.
1. ANATOMIA ULTRASSONOGRÁFICA DA REGIÃO CERVICAL
Uma avaliação adequada começa pelo conhecimento anatômico organizado em compartimentos:
Compartimentos principais
- Região anterior: Tireoide, músculos pré-tireoidianos;
- Região lateral: Cadeias linfonodais;
- Região posterior: Trapézio, musculatura profunda.
Estruturas vasculares
- Artéria carótida comum;
- Veia jugular interna;
- Bifurcação carotídea.
Cadeias linfonodais (níveis I–VI)
Nota: A avaliação por níveis é extremamente importante para o estadiamento oncológico e a investigação infecciosa.
2. PRINCIPAIS INDICAÇÕES CLÍNICAS
- Massa cervical palpável;
- Linfonodomegalia persistente;
- Suspeita de abscesso;
- Avaliação pré-PAAF;
- Suspeita de metástase cervical;
- Avaliação de glândulas salivares.
3. AVALIAÇÃO DOS LINFONODOS: CRITÉRIOS ULTRASSONOGRÁFICOS
A diferenciação entre linfonodos benignos e suspeitos é uma das aplicações mais relevantes do exame.
LINFONODOS BENIGNOS (REACIONAIS)
- Formato oval (relação longitudinal/transversal > 2);
- Hilo ecogênico preservado;
- Cortical fina;
- Vascularização hilar ao Doppler;
- Ecotextura homogênea.
LINFONODOS SUSPEITOS (MALIGNIDADE)
- Formato arredondado;
- Ausência de hilo ecogênico;
- Espessamento cortical excêntrico;
- Necrose central;
- Microcalcificações;
- Vascularização periférica ao Doppler;
- Fluxo aberrante.
Importante: A vascularização periférica está associada a um maior risco de malignidade.
4. AVALIAÇÃO DAS MASSAS CERVICAIS
O ultrassom permite diferenciar a natureza das lesões:
- Cisto: Anecoico, reforço acústico posterior, sem vascularização interna.
- Abscesso: Conteúdo heterogêneo, paredes espessadas, Doppler periférico aumentado.
- Tumor sólido: Ecotextura heterogênea, vascularização interna, infiltração de planos adjacentes.
5. GLÂNDULAS SALIVARES
Sialoadenite:
- Aumento volumétrico;
- Ecotextura heterogênea;
- Hipervascularização ao Doppler.
Litíase (Cálculo):
- Estrutura hiperecogênica;
- Sombra acústica posterior evidente.
6. ARMADILHAS DIAGNÓSTICAS (PITFALLS)
- Confundir linfonodo reacional com linfonodo metastático arredondado;
- Ignorar a avaliação com Doppler vascular;
- Não avaliar ambos os lados do pescoço (avaliação comparativa);
- Não correlacionar os achados com a idade e o contexto clínico do paciente;
- Medir apenas o maior diâmetro global (é fundamental avaliar também a espessura da cortical).
MODELO DE LAUDO PADRONIZADO
LINFONODO REACIONAL:
“Linfonodo cervical nível III, medindo 1,8 × 0,7 cm, formato oval, hilo ecogênico preservado, vascularização hilar ao Doppler, sem sinais de suspeição. Aspecto ultrassonográfico compatível com linfonodomegalia reacional.”
LINFONODO SUSPEITO:
“Estrutura sólida hipoecoica arredondada no nível cervical IV, sem hilo visível, com espessamento cortical excêntrico e vascularização periférica ao Doppler. Achados sugestivos de linfonodo suspeito, recomendando-se correlação clínica e investigação adicional (PAAF).”
7. QUANDO INDICAR PAAF?
A punção aspirativa por agulha fina é indicada quando o linfonodo ou a massa apresenta:
- Perda do hilo ecogênico;
- Cortical espessada (> 3 mm excêntrica);
- Áreas de necrose central;
- Crescimento progressivo documentado em exames seriados;
- Contexto clínico oncológico (ex: rastreio de metástases).
CONCLUSÃO
A ultrassonografia da região cervical é um exame altamente resolutivo quando executado de forma sistemática.
A análise combinada de morfologia, relação anatômica, padrão vascular e contexto clínico permite a estratificação adequada de risco e o direcionamento terapêutico seguro.
Em 2026, o ultrassom cervical não é apenas um exame complementar — é uma ferramenta decisiva e indispensável na prática clínica diária.
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
- AIUM Practice Parameter for the Performance of Head and Neck Ultrasound Examinations.
- EFSUMB Guidelines on Superficial Structures.
- Ahuja AT et al. Sonographic evaluation of cervical lymph nodes. AJR American Journal of Roentgenology.
- Ying M et al. Vascularity and lymph node malignancy. Radiology.
- American Thyroid Association Guidelines.